Você já foi preso? Você já foi internado?


Sim, já fui preso sim. Internado não, porque eu não estava fazendo tratamento: estava cumprindo pena.

Eu fui detido várias vezes desde 2004 – em alguns anos mais de uma vez. A última vez foi no ano passado, em 2011, mas fui liberado na mesma noite.

Eu cumpri as penas de privação de liberdade num manicômio judiciário, ali na Narandiba, também conhecido como Juliano Moreira. O crime que eu cometi eles não divulgam, mas eu acredito que tenha sido pensar. Pensar é um crime hediondo! Está na Lei.
Certa vez eu estava pensando tanto que estava fazendo muitas perguntas – e questionar é um atentado contra o Sistema, também está na Lei. Eu estava fazendo tantas perguntas que precisava ser contido. Por isso meu pai parou o carro no estacionamento do Extra Paralela e tentou me segurar, mas ele é velho, sedentário e caquético – apesar de, agora, ele estar engordando muito -, então foi muito fácil dar um impulso pra trás e cair de costas em cima dele. Ele ficou inconsciente por alguns dias e, naquela hora, bastaria um chute na cabeça pra findar o coitado mas, como se diz por aí, “eu não esmago mosca morta”. Ou será “eu não chuto cachorro morto”? Tanto faz. E os PsiCops nem demoraram muito pra chegar.
O caso é que, se ele morresse, eu poderia até tentar alegar legítima defesa – afinal as câmeras de vigilância registram apenas imiagens e não áudio, seria muito fácil dizer que eu me defndi porque ele estava me agarrando pelas costas – mas, como eu disse, ele já estava velho, caquético e sedentário. Assim, além de responder pela reincidência nos crimes anteriores (já citados acima) eu ainda responderia por homicídio culposo (aquele em que se assume o risco de matar).

Quando as infrações eram mais leves (eram sempre pensar e questionar, mas tomavam propórções menores), nesses casos a pena era de privação parcial de liberdade, que eu cumpria no CENA (serviço anexo ao Juliano Moreira) ou no que hoje se conhece como Serviços Substitutivos – ou, popularmente, CAPS.

O mais importante para voltar à liberdade, algumas vezes com bônus de redução da pena, é participar do programa de cobaias experimentando novas drogas das quais não se conhece os efeitos colaterias nem o sistema de ação. Há alguns que, depois de experimentar algumas dessas drogas, sofrem lesões no cérebro que os torna incapazes de retomar as atividades normais na sociedade. Esses são conhecidos como “aposentados” ou, porpularmente, “inválidos” ou “incapazes” mesmo (mas esses dois com sentido pejorativo). Há outros ainda que sofrem reações tão fortes que não sobrevivem. Oficialmente são registrados como “suicidas” mas, em termos técnicos, chama-se isso de “hipersensibilidade”. Mas são casos raros: apenas 5 entre 7 de todos que usam as drogas.

*PsiCop -> Polícia Mental
Dwsz.

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Poema insensato


POEMA INSENSATO
por Dowglasz

Eu já protegi demais
Quem não merecia minha proteção
Já me iludi demais
Com tão pouca ilusão
Há quem diga mais
Que é muita pretenção
Acreditar que estar certo
É condizente com estar são
Dwsz

ESTOU MORRENDO CADA DIA INTENSAMENTE


“Morrendo e aprendendendo”;”Quanto mais se morrre mais se aprende”; “Quanto maior sua existência, mais longa sua morte”.
Essas foram as ideias mais importantes dessa semana para mim. Foram apresentadas por quem não poderia me ensinar menos do que o mais importante – minha mãe.
“Morrendo cada dia intensamente” seria o status perfeito para Facebook ou MSN Messenger.
A cada dia se aprende alguma coisa – nova ou velha, independente do ponto de vista (ou, a depender do ponto de vista, tudo é velho) – e se aprende porque se morreu naquele dia. A morte deixa os melhores ensinamentos às pessoas. Por exemplo: qual forma de governo não é a melhor; quais companhias não são adequadas; quais profissionais deveriam receber melhores salários…
Estou morrendo há pelo menos 21 anos (que pode ser mais a depender do ponto de vista da obstetrícia, por exemplo). Ainda não sei ao certo o que estou aprendendo nessa morte mas, quando eu viver, certamente terei aprendido bem a lição. Espero apenas que meu último dia de morte chegue logo.
Dwsz.

Ninguém…


Por Dowglasz

Eu deixei de viver a minha vida por mim mesmo
Deixei de fazer o meu caminho
Passei tantos anos falando sozinho
Chorando, precisando de carinho
Ninguém foi capaz de responder
O que acontecia, o que eu podia fazer
Ninguém se importou com a minha opinião
Ninguém está tão cheio de razão!

Ninguém é tão grande quanto eu
Ninguém é mais eu do que eu
Ninguém escolhe o que eu devo fazer
Ninguém escolhe se eu vou ser ou não vou ser

depois atualizo com a ultima estrofe

CENA pro saco


O que antigamente era chamado de Centro de Convivencia de Narandiba, conhecido por CENA, NuDia (ou Hospital-Dia), do Hospital Juliano Moreira, foi criado a partir da idéia antimanicomial.

A idéia é que só sejam internados aqueles pacientes que oferecem risco a si ou aos de seu meio.

Mas o que acontece é que (dizem-se) profissionais despreparados manipulam o sistema interno como bem entendem e simplesmente derrubam o movimento antimacomial. Quem chega ali sai melhor por um único motivo: chegou ali em crise. Pode-se observar muito bem isso porque muitos voltam periódicamente (em nova crise).

O CENA é um prédio anexo ao Hospital Psiquiátrico Juliano Moreira, no bairro Narandiba, em Salvador.