Pitty se une a seu guitarrista para tocar o projeto Agridoce paralelamente


Pitty e Martin no projeto Agridoce / Divulgação

RIO – Quando não está nos palcos divulgando seu último álbum, “Chiaroscuro”, em vez de descansar, Pitty faz mais música. Ultimamente, parte de seu tempo livre tem sido destinado à parceria com Martin Mendezz, guitarrista de sua banda, no Agridoce, que por enquanto tem seus frutos divulgados apenas na internet. No projeto, ela compõe, toca e canta. Ele ainda não começou a soltar a voz (não por falta de incentivo da cantora), mas seus instrumentos estão afiados. O MySpace (acesse ) da dupla conta com quatro músicas e não há planos para o futuro quando o assunto é show ou lançamento de disco. Leia entrevista com Pitty e Martin sobre o projeto.

Megazine: Como e quando surgiu o Agridoce?

Pitty: É um tanto quanto impreciso, mas já faz um tempo que eu e Martin vínhamos falando sobre fazer um experimento com músicas que envolvessem violão, piano, voz e tivessem uma pegada mais sutil e melancólica. É recorrente na nossa história encafifarmos com um disco em especial ao mesmo tempo sem um saber do outro, e nessa época era o Pink Moon de Nick Drake. Já conhecia e amava esse disco de longa data, mas ele ressurgiu numa determinada semana e eu o escutava obsessivamente, ininterruptamente. Conversando, descobri que ele estava na mesma. Aí juntou o Friendly Fire do Sean Lennon que também virou uma obsessão por aqui; de não conseguir parar de ouvir, de querer dissecar o disco e seus timbres, essas coisas. Numa dessas sessões de escutar música atentamente e em silêncio, acho que Martin pegou o violão e começou a dedilhar alguma coisa… sentei no piano, e fomos.

Martin: Não lembro exatamente quando, mas foi criado a partir de um interesse comum dos dois de fazer um projeto com essas características, tanto sonoras quanto de execução… essa coisa mais introspectiva e meio estilo “doi it yourself”.

Megazine: Qual é o papel de cada um de vocês nesse projeto?

Pitty: Objetivamente, eu toco piano, ele violão, e eu tenho cantado as músicas. Mas os dois podem cantar e eu tenho botado uma certa pilha pra ele gravar umas vozes. Os dois compõem as harmonias e arranjos, eu tenho feito as letras e melodias, mas ele também pode aparecer com alguma. Tudo pode, é só a gente gostar. Ele fica responsável pelas gravações e, como entramos nessa de compartilhar, acabei cuidando de fazer um MySpace e editar os vídeos. Mas no final, tudo acontece com o aval e a ajuda do outro.

Martin: O mesmo. Cada um faz um pouco de tudo. O café dela fica mais gostoso e eu sou melhor pra carregar coisas mas as vezes até isso sai trocado.

Megazine: Na hora de gravar, vocês fazem tudo sozinhos ou há amigos envolvidos?

Pitty: Até então, tem sido só nós dois. É que é uma oportunidade pra gente desenvolver certas habilidades como microfonar e timbrar os sons, pra aprender a mexer no Final Cut, descobrir que tipo de microfone funciona melhor para apertar na compressão, pesquisar dobras de voz e efeitos. É, de fato, um laboratório. E por ser um laboratório, pode ser que em algum momento algum amigo apareça para contribuir e nos ensinar alguma coisa nova. Se somar, tá valendo.

Martin: Tudo sozinhos. Dividimos as funções baseados nas habilidades (ou falta delas) de cada um.

Megazine: Qual é a maior inspiração na hora de compor as músicas do Agridoce?

Pitty: Juntamos umas referências a partir das músicas que fomos fazendo, e vimos que tinha a ver com Nick Drake, Iron & Wine, Velvet Underground, Serge Gainsbourg, Jeff Buckley e coisas tais. Suave porém denso, calmo e ainda assim pesado, doce e melancólico. Por isso o nome, Agridoce. Música doce feita por gente amarga. Outras referências sensoriais e visuais aparecem: dias nublados e a quentura do vinho tinto, um cabaret intimista e enfumaçado, um sorriso triste que é quase um esgar, filmes como Blue Velvet ou um quadro de Frida Kahlo: as cores são fortes, mas a imagem é obscura.

Martin: Não tem. Tem muitas referências, mas na hora de compor é muito da cabeça pra dentro. Fazendo uma análise posterior, você consegue identificar pinceladas disso ou daquilo nas músicas mas não é feito com essa intenção. É como se fosse um vazamento ou uma dica.

Foto conceitual da dupla / Divulgação

Megazine: Quem compõe, quem pensa em arranjo… como sai uma música do Agridoce?

Pitty: De diversas formas. Em algumas, o ponto de partida foi o dedilhado do violão; outras, algo que eu havia escrito. Os arranjos surgem quando tocamos juntos. “Dançando” e “Romeu”, eu fiz em alguma madrugada e mostrei pra Martin, que sempre dá um jeito da música ficar mais rica. “Ne Parle Pas” e “Epílogos e Finais” partiu dele no violão e eu fui encaixando o piano pra depois fazer a letra. A contribuição de um nas coisas do outro é tamanha que já não sei direito quem fez o quê em determinadas músicas. E na verdade isso é o que menos importa.

Martin: Não tem regra. Quem sacar a ideia primeiro ganha. Talvez a única constante seja que sempre alguém faz alguma coisa.

Megazine: Quando saiu a primeira música e qual é a periodicidade de lançamento de cada uma?

Pitty: Acho que a primeira surgiu há alguns meses. Não há periodicidade, depende do nosso tempo livre e de inspiração. Teve uma semana muito pródiga em que duas músicas apareceram no intervalo de poucos dias, por exemplo. A medida em que vão ficando prontas a gente bota no My Space; a etapa final do dia de gravação e mixagem é compartilhar a nova música.

Martin: Não lembro quando saiu a primeira, mas elas vão sendo disponibilizadas assim que vão ficando “prontas”. Na verdade ainda mexemos nas músicas, vamos mudando alguma coisa aqui e ali, aprendendo alguma coisa nova…

Megazine: O que vocês pretendem com esse projeto? Só distração ou também show, disco etc?

Pitty: Não sei. O que a gente pretendia quando se dispôs a fazer era somente experimentar, exercitar coisas novas, aproveitar o tempo livre de forma criativa, exercer outros lados musicais que não cabem na nossa banda principal. Nunca projetamos nenhum tipo de desdobramento disso. Tanto era só uma experiência a ser compartilhada que apenas fizemos um MySpace e largamos, despretensiosamente, o link no meu Twitter. Se pensássemos nisso como uma possibilidade real de trabalho, teríamos feito diferente: programaríamos um lançamento, gravaríamos de forma mais profissional, faríamos foto de divulgação e avisaríamos a imprensa. Nada disso aconteceu, porque a ideia nunca foi essa.  (Grifo meu. Já existe planejamento a respeito e fotos de divulgação. Dwsz)

Gravamos em casa, num processo muito artesanal, são praticamente demos ali. E nunca chegamos a divulgar isso oficialmente para a imprensa; a coisa simplesmente se espalhou à boca miúda. Isso me chamou a atenção e me deixou de certa forma lisonjeada: o interesse partiu de fora. Parece que as pessoas gostaram, e aí é que se abriu essa outra possibilidade de show, disco, etc. Mas eu não sei o que vai rolar, por enquanto a gente se diverte com esse interesse mas fica focado mesmo é no objetivo inicial da coisa: exercitar a criatividade.

Martin: Na verdade, manter a despretensão é nossa maior prioridade. Volta e meia temos algum delírio com relação a outros desdobramentos desse projeto mas a maior pretensão mesmo, sem papo hippie, é não deixar perder a leveza

Megazine: Já há convites para show?

Pitty: Rolaram uns convites, e seria divertido ao menos uma vez sentir como é fazer isso ao vivo. O som é tão intimista que teria de ser algo bem específico; lugares pequenos e aconchegantes, com o clima certo para este tipo de música.

Martin: Sim.

Megazine: Como não trazer o que rola na carreira de Pitty para o Agridoce?

Pitty: São duas coisas bem diferentes, e é exatamente por isso que Agridoce existe. Para sanar essas outras vontades musicais, para passear por outros universos sonoros, pra dar vazão a outros lados da nossa personalidade. Existem muitas personas, e as vezes elas não cabem no mesmo espaço.

Martin: É tudo muito diferente, não acho que venha tanta coisa de lá pra cá. Claro que somos nós mesmos então tem aspectos de que não dá pra fugir, mas também não ficamos na paranóia, não.

 

Fonte: http://oglobo.globo.com/megazine/mat/2010/11/04/pitty-se-une-seu-guitarrista-para-tocar-projeto-agridoce-paralelamente-922950329.asp

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